Quando um romance começa?
Eis aí uma pergunta difícil de responder com precisão. Não existe uma fórmula pronta capaz de dar ao escritor a indicação exata de como iniciar um romance. Pessoalmente, vejo nesse processo uma das partes mais difíceis da escrita, pois é ali, no começo, na primeira leitura, nas primeiras palavras, que o romance vai “fisgar” o leitor ou simplesmente vê-lo ir embora. O ato de iniciar um romance acarreta muita responsabilidade para o autor, uma responsabilidade para com a própria obra, que já surge em sua mente como um esboço, ainda impreciso, lutando para sair em traços definidos. Resta agora passar esses esboços para o papel, transformá-los em palavras, em frases, em páginas e, finalmente, em uma história capaz de ser assimilada pelo leitor.
O leitor espera, ao abrir um livro, encontrar algo que o impacte e o segure naquela página. Esse algo precisa ser suficiente para estimular sua curiosidade, sacudir seu emocional ou ativar algo em sua memória. Talvez seja uma imagem, uma frase, uma situação, uma personagem ou simplesmente uma sensação difícil de explicar. Quem sabe se crie até um vínculo silencioso entre leitor e história, um vínculo que só será desfeito na última página.
Mas o que seria esse “começo”? O primeiro parágrafo? A primeira página? O primeiro capítulo? Talvez seja tudo isso e, ao mesmo tempo, algo muito maior. Segundo David Lodge, no livro A Arte da Ficção, “Qualquer que seja a definição, o começo de um romance é a fronteira que separa o mundo real que habitamos do mundo que o romancista imaginou”.
E talvez seja justamente essa fronteira que torne o início de uma história tão especial. Antes da primeira palavra, o leitor está em seu próprio mundo. Depois dela, começa a atravessar uma espécie de portal. Do outro lado, existem lugares que nunca visitou, pessoas que não conhece, conflitos que ainda não compreende e acontecimentos que, até aquele momento, só existiam na imaginação de quem escreveu.
A forma de iniciar um romance, é claro, varia de escritor para escritor. Desde o “Era uma vez”, tão característico dos contos de fada, até o icônico “Numa pequena toca morava um hobbit”, este não deixa de ser um momento mágico. É o momento em que um novo mundo, uma nova realidade, abre as portas para o leitor. O ato de simplesmente abrir o livro não significa passar pela porta. É preciso ser atraído, fisgado pelas palavras mágicas e, só então, conseguir entrar.
E talvez seja essa uma das maiores responsabilidades de quem escreve: construir essa porta de tal maneira que o leitor queira atravessá-la.
Não basta apresentar uma história. É preciso despertar o desejo de conhecê-la. Não basta colocar uma personagem diante do leitor. É preciso fazer com que ele queira acompanhá-la. Não basta descrever um lugar. É preciso criar a sensação de que existe alguma coisa naquele espaço que merece ser descoberta.
Para mim, como autora de romances, é extremamente delicado dar esse primeiro passo. São dias, horas pensando. Noites em claro olhando para o nada. Pensamentos vagando por regiões desconhecidas, procurando uma frase, uma imagem, uma voz ou uma cena que ainda não encontrou sua forma definitiva. Às vezes, tenho a impressão de que a história está ali, muito próxima, mas escondida atrás de uma espécie de neblina. Sei que existe, consigo senti-la, mas ainda não consigo enxergá-la por inteiro.
Então começo a experimentar palavras.
Uma frase é escrita e apagada. Outra surge. Um parágrafo parece promissor, mas não é exatamente aquilo. Uma ideia leva a outra. Uma personagem começa a se mover sozinha. Um cenário ganha forma. E, pouco a pouco, aquilo que antes era apenas uma imagem difusa começa a adquirir contornos.
Até que, de repente, a luz acende.
É um instante difícil de explicar. Alguma coisa se encaixa. A história encontra sua voz e, naquele momento, o que parecia impossível começa a acontecer. O esboço deixa de ser apenas um esboço. As linhas se tornam mais nítidas. As imagens encontram palavras. As personagens ganham vida. O mundo imaginado abre suas portas.
E tudo tem início.
Talvez seja por isso que eu considere o começo de um romance muito mais do que apenas o ponto de partida de uma narrativa. Ele é o primeiro encontro entre duas imaginações: a do escritor, que criou aquele universo, e a do leitor, que está prestes a descobri-lo. O autor oferece as primeiras palavras como quem oferece uma chave. Cabe ao leitor decidir se deseja usá-la.
Quando isso acontece, quando o leitor aceita o convite e atravessa a fronteira entre o mundo real e o mundo imaginado, algo extraordinário se estabelece. A história deixa de pertencer somente a quem a escreveu. Ela passa a existir também dentro daquele que a lê.
E talvez seja esse, afinal, o verdadeiro poder de um começo: não apenas fazer o leitor continuar lendo, mas fazê-lo querer permanecer.


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